Quando não remover metadados: provas e cadeia de custódia
Remover metadados nem sempre é o certo. Em provas, seguros, acervos e autoria, o original precisa ficar intacto. Veja o que guardar, o que enviar e como registrar o hash do arquivo.
Não remova os metadados do original quando ele pode ser prova, base de seguro, registro de autoria ou acervo. Remova só a cópia que sai de casa, para o público que não precisa saber de onde a foto veio. É a regra mais simples de tudo o que se escreve sobre limpeza de metadados, e também a exceção mais importante.
Quase todo conselho sobre remover dados parte do princípio de que o risco é o arquivo circulando. Em alguns casos o risco é outro: apagar o registro que dá sentido ao arquivo.
O que os metadados protegem
- Prova de quando e onde. A data de captura e as coordenadas de uma foto de obra, de acidente ou de um imóvel podem mostrar se a imagem é anterior ou posterior a um fato. Campos como DateTimeOriginal e GPSLatitude são o que sustenta essa leitura.
- Prova de autoria. O campo de direitos autorais e o histórico de edição registrado em XMP ajudam a mostrar quem produziu a imagem e em que momento. Veja o campo Copyright.
- Continuidade de equipamento. O número de série da câmera liga um conjunto de fotos a um mesmo aparelho, o que pode ser decisivo quando a autoria é questionada.
- Contexto para acervo. Legendas e datas do bloco IPTC, como o caption-abstract, são o que faz uma foto de arquivo ser encontrada e usada corretamente anos depois.
Quando o original precisa ficar intacto
| Situação | O que guardar intacto | O que enviar |
|---|---|---|
| Prova em processo ou queixa | Original no aparelho ou no arquivo de origem, com hash registrado | Cópia, com o que foi pedido, identificada como cópia |
| Sinistro de seguro | Fotos originais, com metadados e data | O que a seguradora pedir, sem edição não explicada |
| Foto de imprensa ou de acervo | Arquivo original com o bloco IPTC | Versão para publicação, sem o que é dado pessoal alheio |
| Autoria e direitos autorais | Original com autor, data e copyright | Versão de visualização, com marca d’água se for o caso |
Calcule o hash no dia em que o arquivo chega
Hash é uma impressão digital do arquivo. Calculado no momento em que a foto ou o documento chega até você, ele mostra se o arquivo mudou depois. Não prova autenticidade, mas transforma uma discussão vaga em uma pergunta respondível:
shasum -a 256 foto-original.jpg
certutil -hashfile foto-original.jpg SHA256O primeiro comando é de macOS e Linux, o segundo de Windows. Anote o valor num lugar separado do arquivo, com a data e o nome de quem fez o cálculo. Um hash guardado só na mesma pasta do original não serve de muito.
O que a limpeza faz com o original
Limpar um arquivo grava uma versão nova. O original não muda, desde que você não sobrescreva. O risco está no nome e na organização: foto-limpa e foto-original precisam ser óbvios, e a pasta do original não deve ser sincronizada com nada que a edite. O erro mais comum é limpar “no mesmo lugar”: o original some e não há cópia de segurança.
O MetaWipe trabalha com cópias. Você envia o arquivo, baixa a versão limpa, e o original continua onde estava, no seu computador. O servidor apaga as cópias uma hora depois do envio, ou 24 horas se você optar por isso. Ele não é um cofre: não guarde nele a única cópia de uma prova.
PDF assinado e documentos com validade
Assinatura digital e limpeza são incompatíveis. Qualquer reescrita do arquivo invalida a assinatura, o que é o comportamento correto para quem a verifica. A ordem certa é limpar antes de assinar, se a versão assinada precisa sair limpa. Se o documento já está assinado e precisa ser guardado como prova, ele fica como está. Veja o que acontece ao limpar um PDF assinado.
Um PDF também guarda versões antigas no próprio arquivo, por causa da atualização incremental. Isso é uma razão a mais para preservar o original quando ele tem valor de registro, e para limpar só uma cópia reescrita. Veja o PDF que guarda versões antigas do texto.
O que a limpeza não prova
Metadados são texto, e qualquer pessoa com as ferramentas certas os edita. Ter o original com metadados coerentes ajuda, mas não prova a verdade do conteúdo. Uma foto com data e local compatíveis pode ser de outro dia ou de outro lugar, se alguém forjou os campos. O valor do original está em ser consistente com o resto da história, não em ser inquestionável. Veja se metadados podem ser falsificados.
Cadeia de custódia, em termos práticos
O Pacote Anticrime, Lei 13.964/2019, incluiu no Código de Processo Penal regras sobre a cadeia de custódia de vestígios. Quem não é órgão de investigação não segue esse rito, mas o princípio serve de referência: saber quem teve o arquivo, quando, e o que foi feito com ele. Se o caso chega à polícia ou à Justiça, a forma correta de preservar um arquivo digital é uma decisão do advogado ou do perito, não de um removedor de metadados.
Checklist antes de limpar
- Pergunte se o arquivo pode ser cobrado depois: processo, seguro, contrato, autoria ou acervo. Se a resposta for sim, siga os próximos passos.
- Calcule o hash e guarde o original em local separado, com acesso restrito e sem sincronização que o altere.
- Faça a cópia de envio e limpe só ela. Nunca use o original como arquivo de trabalho.
- Confira a cópia com a leitura gratuita de metadados, sem cadastro, para ver o que saiu e o que ficou.
- Registre o que foi enviado, para quem, quando e com qual hash. Esse registro vale tanto quanto o próprio arquivo.
Quando a regra não se aplica
Nem todo arquivo com metadados é prova. A maioria das fotos de férias não vai a juízo, e nesses casos limpar tudo tem risco pequeno e benefício real de privacidade. Para uma foto de família que vai para um grupo, a remoção de metadados de JPG é a escolha simples. O cuidado é reservado ao arquivo que pode ser cobrado depois.
Uma ressalva honesta
O erro mais comum não é vazar um original. É limpar o original numa hora de pressa e perceber meses depois que ele era a única cópia com data verificável. Guardar um arquivo a mais é barato. Refazer uma cronologia sem ele não é.